quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uma noite feliz no São Camilo

Olá, semelhantes,

Hoje vou apresentar o "modus operandis" do albergue São Camilo. É claro que cada dia, é um novo dia. E eu estou resumindo um dos dias que presenciei. Essa é a minha rotina, não quer dizer que todo equipamento seja assim, mas no fundo, é tudo igual mesmo.

5h30 - A luz se acende. O São Camilo é dividido em dois imensos galpões, ambos com banheiros e chuveiros. No galpão da esquerda estão 90 beliches (dez beliches separadas para os pernoites, aqueles que só estão de passagem ou que pleiteiam uma vaga fixa). Os banheiros deste galpão são horríveis, em média dez vasos sanitários (algumas descargas quebradas) uns oito chuveiros (sendo dois queimados) para 340 pessoas.

No galpão do lado direito mais 75 beliches e dez camas de solteiros (destinadas aos idosos que inclusive, têm seus armários próprios com chave e tudo mais). O banheiro aqui é infinitamente melhor, inclusive por causa dos idosos, há cinco vasos sanitários e quatro chuveiros, todos quentíssimos. Há também, entre o galpão e os banheiros, uma área onde há quatro tanques, para lavar roupa. Dia ímpar, quem é número ímpar lava sua roupa, dia par, número par. Claro que não há funcionário fiscalizando nada disso! O Tanque é liberado após às 21 horas. Estende-se a roupa numa área externa entre os dois galpões e começa-se a rezar uma novena na madrugada, para que quando der 5h30 da manhã, sua roupa ainda esteja no varal.

Os banheiros, nesse horário em que a luz se acende estão impróprios para o uso. Urina, fezes, vômitos, camisinhas usadas, cápsulas de cocaína, garrafinhas de cachaça, tudo espalhado. Óbvio, não há manutenção na madrugada. O melhor mesmo é só escovar os dentes e usar o toilette do metrô, que é o que eu faço. Coisas simples e normais como "usar um banheiro pela manhã" torna-se um martírio! Isso sem falar, que durante a madrugada você é acordado com gritos de pesadelos de outras pessoas ou brigas, isso somado aos gases, arrotos e risadas...

Numa noite tranquila você consegue acordar umas três vezes apenas na madrugada. No galpão em que durmo, como é o local dos pernoites, é um entra e sai a noite toda. Eles chegam a qualquer momento. A entidade recebe pelo número de "leitos" ocupados, portanto...

Nesse horário, a luz se acende, independente do horário em que você foi dormir. É hora de levantar (mas desde às 4 horas da manhã, começa um movimento, pois tem aqueles que madrugam para trabalhar... Sim, uma grande colméia). Logo após a luz acesa, liga-se um rádio em um volume ensurdecedor!!! Dependendo do plantão da madrugada, se o funcionário for de bom gosto dá para ouvir uma Nova Brasil FM, mas invariavelmente é pagode, forró ou Roberto Carlos mesmo...

Eu arrumo minha cama, impecavelmente, mas há os que levantam-se e do jeito que está fica. Há, inclusive, os que já dormem vestidos. Você tem até às 7 horas para ir ao bagageiro, pegar "uma" mala sua, de preferência a menor. Aquela em que você vai guardar a roupa que dormiu, sua necessaire, enfim, tudo o que pegou à noite. Nem pense em pedir a bagagem toda, seja ela qual for. Você vai comprar uma briga boa com quem estiver atendendo no bagageiro, geralmente aquele funcionário que trabalhou a noite toda e não vê a hora de ir embora. Cuidado com os "bom-dias" excessivos, há funcionários e conviventes que os consideram um palavrão!!!

7h00 - Até esse horário você tem que deixar o equipamento. Sobe-se ao refeitório onde é servido café-com-leite e pão com manteiga. Na maioria das vezes, o desjejum está quente, dependendo do funcionário do plantão. Tem um que esquenta às 5h30 apenas e deixa até às 7h00 daquela forma, ou seja, quem chega no fim já encontra tudo prá lá de morno. Na maioria das vezes, as mesas estão limpas, alguns raros dias você ainda encontra sobras de comida nas mesas, do jantar anterior. Haja chuva ou haja sol, todos tem que sair nesse horário.

16h - Horário de entrada. Nunca é britanicamente às 16 horas, atrasa-se 15, 20 ou 30 minutos. O desagradável é a fila que se forma na calçada da Avenida Celso Garcia. E quanto mais você toca a campainha, mais eles demoram em atender.

17h - Esse é o horário em que é aberto o refeitório para o jantar. Nesse horário os banheiros ainda estão limpos e usáveis. Porém, a fila de espera para se tomar um banho pode demorar 30 minutos. Com muita sorte você pode encontrar sua toalha de banho (que é trocada toda terça-feira) aonde você deixou. Quanto mais exposta mais fácil de você perdê-la.

Eu, por exemplo, após me banhar, deixo-a secando na beira da cama (durmo na parte de cima da beliche) e quando saio de manhã dobro-a e coloco-a debaixo do travesseiro, mas, mesmo assim, algumas vezes quando retorno, principalmente se for muito tarde, não a encontro onde deixei...

Bom, você chega da rua e usa o bagageiro. Nesse horário você pode mexer em toda sua bagagem (mesmo assim ouvindo algumas reclamações de alguns funcionários que insistem em dizer que você "tem coisas demais". Como se todos ali tivessem nascidos na rua mesmo...e deveriam ter uma muda de roupa e pronto!). Pegue a roupa que você vai dormir, a roupa que você vai vestir no dia seguinte, seus produtos de higiene, seu livro, ou seja, tudo o que for usar nesse momento, pois se precisar usar o bagageiro novamente, irá ouvir um sermão de dar inveja a qualquer Bento XVI da vida...

Isto posto, você vai se banhar. Só mediante o banho é que você recebe a ficha do jantar, ou seja, sem banho, sem janta. Ótimo, se todos levassem ao pé da letra esse critério. No entanto, você, enquanto espera o box esvaziar, percebe pessoas entrando, de sapato e tudo, abrir o chuveiro ficar cinco minutinhos e fechá-lo, com a toalha intacta. Mesmo assim recebem a ficha. Óbvio que quem está responsável por fiscalizar o banheiro, não questiona absolutamente nada, principalmente se a pessoa está alcoolizada. Após o banho, ficha da janta na mão, é só subir para jantar.

Um ou uma funcionário(a) monta sua bandeja: um copo descartável, na maioria das vezes com algum suco. Se for assim, não há sobremesa ou fruta. Se o copo está vazio, é porque vem sobremesa (arroz-doce, gelatina, etc) ou uma fruta (banana, maçã ou mexerica). Colocam uma colher na bandeja - você tem que avisar com antecedência que você come com garfo, porque depois do prato pronto eles se recusam em trocar, como se os talheres estivessem a quilômetros de distância. Um pãozinho e começam a montar o seu prato (fundo, aliás). Uma concha de feijão (se você quiser o arroz primeiro, tem que avisar antes também, dependendo do humor de quem o está servindo você é ouvido e até rola um "bom-apetite"). Uma ou duas, ou até três escumadeiras de arroz (você vai pedindo eles vão colocando, só não pode desperdiçar), a mistura (uma carne, frita, ao molho, frango, peixe-frito, steak, e, num dia sem sorte, salsicha... ah, duas unidades).
Alguma verdura ou legume cozido ou refogado e salada, muita salada. O sal fica na bancada, à vontade. Há jarras de plástico nas mesas, e um bebedouro próximo. Aqui começa o mercado-negro: me dá o seu bife que eu dou minha gelatina e meu pão, ou meu suco, assim por diante... Após a janta ou você vai para a sua cama ou se arriscar a ir à sala de TV. Um minúsculo aparelho televisivo, numa sala de frente com a Avenida Celso Garcia e seus ônibus e carros, geralmente no volume 7, ou seja, você não consegue ouvir quase nada. O motivo é que o volume do som atrapalha as assistentes-sociais (três). Conforme a noite vai caindo e o silêncio aumentando dá para ouvir o fim do Jornal Nacional ou a novela das nove. Ah.. quando é noite de jogo alguém "dá um jeitinho e aumenta". Detalhe: sempre na Rede Globo.

20h - Nesse horário apagam-se as luzes dos galpões e é encerrada a janta. Quem estiver dentro, janta. Quem chegar depois, já era, tem que pedir liberação da assistente-social. Esse horário é o pior para jantar. Funcionários da cozinha ficam praticamente ao seu lado no refeitório, querendo que você engula tudo rapidamente, pois eles querem passar os seus panos imundos nas mesas, terminar a louça e ir embora.

Após isso, com as luzes apagadas nos galpões, alguns até tentam dormir e conseguem. Um ou outro ainda teima em conversar, mas no meio de tanta gente reclamando acabam fazendo silêncio. Se você quiser ler tem uma ante-sala na frente da sala das assistentes-sociais, pois a sala de TV também está às escuras. Esse é o horário que é desligada a energia dos chuveiros também. Das 21 às 23 horas são ligados os quatro chuveiros do outro galpão, o dos idosos. Depois das 23h, acabou-se o banho.

21h - Último horário normal de entrada. Se você for passar disso ou avisa de manhã, antes de sair, ou liga avisando que chegará mais tarde. Sem janta. É nesse horário que é feita a contagem e são repassadas para a Prefeitura as vagas para pernoite. 70% das pessoas já estão dormindo.

23h - Último horário para você entrar, salvo exceções - quem está estudando ou trabalhando, por exemplo.  Sem janta. Os banheiros já estão calamitosos. A TV já está desligada. As assistentes-sociais já foram. O bagageiro abre pela última vez e rapidamente. A avenida vai se silenciando. Um cachorro ao longe late. Uma quietude melancólica paira no ar. Nos galpões sons de gases, arrotos, gemidos e roncos. Mas ainda há uma esperança, tão verde quanto a cor dessas letras que uso na fonte deste post. A esperança, que amanhã, às 5h30 da manhã, tudo será diferente...

Engula, não mastigue

- e de preferência rápido que eu quero limpar o refeitório!!!



Sabe quando você chega às 20 horas no equipamento social (centro de acolhida), no limite do horário do jantar, e literalmente está no fim da fila? Feijão frio, mistura ressecada, fios de saladas murchas...

E por quê? Porque não há um padrão na elaboração dos pratos, seja na confecção, no serviço ou na apresentação. Enfim, vai à mesa daquele que chega às 17 horas para jantar algo completamente diferente de quem chega às 20 horas. Não entro no mérito da quantidade. Para muitos, aquela será a ÚNICA refeição do dia. A questão é falta de padrão mesmo.

Falta esclarecimento aos funcionários da cozinha, falta organização, falta amor para com o outro (lembrando-se que em cozinha a necessidade maior é saber que você está preparando algo para o “outro” comer e que, invariavelmente, você também será o “outro” em determinada hora, em determinado lugar)... É tanta falta que beira o surreal.

Hoje vou me prender nesse ponto. Você chega no fim do jantar, que é seu direito, e está garantido por lei (aliás, quando assinam o convênio com a prefeitura, as entidades estão BEM cientes dos deveres) e pega o que sobra por pura falta de gerenciamento, por desmazelo, desamor mesmo.

E o que é pior: tem que jantar, ou melhor, engolir a comida, porque tem um funcionário fuzilando-o com o olhar, para que você saia o mais depressa possível, pois ele tem que limpar o refeitório. Está bem, eu sei: ele está cansado, mora longe, vai pegar condução, todos os fatores sociais aí embutidos. Mas ele não é o único. É só mais um na multidão. Deveria se lembrar que aquela pessoa que ele está servindo se não está na mesma condição que ele, deveria estar e, por isso, mesmo é considerado um excluso.

Isso sem falar nos funcionários mais afoitos, que começam a limpar a mesa com você ainda comendo. Aquele pano imundo e fétido ao seu lado. Os “pseudos-monitores”, orientadores, que  não monitoram, nem orientam nada, mas berram em alto e bom som, que você não deve “enrolar” e sim comer logo e descer.

Bem vindas, gastrites, úlceras e afins. Adeus tudo aquilo que mamãe ensinava: “Hora da refeição é sagrada. É a hora da partilha, hora feliz, tem que ser prazeirosa, etc...”. Tudo tem que ser muito rápido, mal-feito, sem amor, sem dedicação, mas com muita regra inútil e desnecessária.

E a maior surpresa ainda está por vir: é salsicha de novo!!!


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Salsicha nossa de cada dia


Sábado, geralmente, em equipamentos sociais é noite de salsicha. Quinta-feira também. Domingo, como não tem coordenador, e a cozinha quer fechar mais cedo, também. Ah... terça-feira é um ótimo dia para a salsicha. Quarta a salsicha acompanha o feijão preto. Segunda-feira, começo de semana, não dá para inventar muito: SALSICHA!!! Sexta: Ufa!!! Dia de peixe... xiii mas está congelado: "Salsicha de novo?"

Juntando panelas, fuês, colheres-de-pau, rechauds e, principalmente, paus-de-macarrão, sou Alexandre Frederico, 40 anos, da Mooca, São Paulo. Formação acadêmica:Artes Cênicas. Paixão e habilidade: Gastronomia.

Disposto a analisar e ir a fundo na Gastronomia Social. O que é isso? O que é um Equipamento Social? Você deve conhecer como albergue, centro de acolhida, abrigo e por aí afora... Aquela fila imensa nas calçadas de Sampa de pessoas diferentes (festa estranha, gente esquisita). Pois é, essas pessoas existem, têm sonhos, amam, odeiam, lutam, se acomodam, dormem, às vezes comem, outras não... Bebem, fumam, transam e riem alucinadamente!!!

Você, se olhar bem à sua volta, conhece algumas dessas pessoas. São 80, 100, 130, 170, 340 e às vezes 1150 pessoas morando juntas! O que você, talvez, não saiba é o que rola dentro do albergue, centro de acolhida, abrigo (equipamento social = politicamente correto). O dia-dia, o que é servido, como é servido, de que forma é servido, para que é servido, porque é servido. É melhor se sentar porque, hoje, tem salsicha de novo!

A idéia é que este blog seja como uma mesa de jantar, onde todos se reúnem, conversam, e se alimentam.

Bom apetite!